segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Diga tchau e vá.


Eu me sento na segunda cadeira da fileira do meio. Olho atentamente pro quadro e tento absorver cada palavra que ele diz, mas me concentrando na matéria. É meio difícil não olhar pros olhos dele que tanto piscam, para as mãos que gesticulam e pro sorriso de canto que ele dá talvez pelo prazer de estar dando aula. Nesse momento está dizendo sobre como as palavras são criadas e ao mesmo tempo tentando controlar a bagunça da sala. Vez ou outra olha para mim, mas tenta não manter muito tempo os nossos olhares fixos e o porquê eu não sei.

Ele me deixa envergonhada. Minhas pernas tremem, minha mão sua, começo a gaguejar e um sangue frio percorre minha barriga quando eu estou perto dele. Não sei se já percebeu, mas minha voz fica incrivelmente doce ao dirigir a palavra a ele. Pelas minhas notas eu sou a aluna mais aplicada na matéria e isso meio que me deixa orgulhosa, apesar dos ínfimos minutos que perco admirando aqueles cabelos negros desgrenhados e esses olhos de quem está desinteressado mas ao mesmo tempo prestando a atenção.

Falta apenas um minuto pro horário acabar. Bato minha caneta na mesa rezando para que esses eternos 60 segundos terminem e eu possa ir para casa para pensar no professor tranqüilamente. Eu mantenho essa paixão platônica desde o início do ano. Às vezes ele me chama para conversar particularmente, conferir se eu aprendi corretamente a matéria. Mas nada mais que isso, felizmente. Ele já deve ter notado essa minha obsessão por ele, todo o meu conhecimento sobre a vida dele. Sou uma verdadeira stalker.

E o sinal toca. Levanto-me, começo a andar tranqüilamente até a porta com o meu fichário por dentro dos meus braços cruzados. Aparentemente sou uma das últimas a sair da sala, até que o ouço dizer o meu nome. Respiro, respiro, respiro. Giro oitenta graus e o encaro. Ele está sorrindo, um sorriso sem malicia, mas com alguma intenção.

— Aproxime-se. Que vergonha é essa? – a voz dele teve impacto nos meus ouvidos alguns segundos depois. Aproximei-me. Fiquei a meio palmo longe dele. Mais um pouco e eu podia sentir sua respiração na minha face, já que ele estava sentado de uma certa forma que o deixava do meu tamanho.
— Sim, pro... fessor? – gaguejei ao dizer. Tentava desviar o olhar e observar os livros que ele mantinha atrás da mesa dele, mas constantemente nossos olhares se cruzavam.
— Como você está bonita, Junie. – ele disse, sorrindo e colocando uma mecha de meu cabelo levemente grudada ao suor do meu rosto atrás da minha orelha. Ruborizei. Quis me enfiar em algum buraco no chão e não sair até que ele se retirasse da sala.
— O... obri-brigada. – soltei uma palavra pequena e totalmente difícil pro momento. Ele colocou o rosto perto do meu.
— Você sabia que há um bom tempo venho observado seu comportamento em relação a mim? – silêncio.
— Não. – despejei.
— Pois eu notei. E venho admirando isso. Essa sua obsessão por mim, por saber aonde eu vou, com quem vou, onde moro, onde como, o que como, o que respiro. – ele foi dizendo de uma forma sutil enquanto levantava o meu rosto – Você é uma das minhas melhores alunas, Junie. Isso é como pontos extras para você. – a boca dele estava a um centímetro da minha. Eu senti seu hálito de menta e cigarro. Bambeei. Pedi a Deus força para me manter em pé.

Ele me selou. Um selinho molhado, demorado, que me fez levantar as mãos involuntariamente e colocá-las em volta do pescoço branco e cheio de veias saltadas. Começamos um beijo. Ele introduzia lentamente sua língua e roçava-a na minha, me fazendo eu me soltar aos poucos. Alisei seu cabelo, senti a maciez, aproximei o meu corpo e fui abraçando-o enquanto sentia o gosto maravilhoso que ele possuía. Fui parando aos poucos, ainda com os olhos fechados, colocando a minha testa contra a dele, apenas sentido nossa respiração ofegante e o bombear do meu coração. Provavelmente ele escutava também. Resolvi abrir os olhos e olhar pr’aquele olhar que tanto me encantava. Parecia um sonho.

Ao levantar minhas pupilas lentamente, comecei a ouvir uma voz. Uma voz que me gritava, me chamava:

“Venha, Junie, está na hora. O almoço está pronto, você dormiu demais!”.

Acordei.

14 comentários:

  1. Tô precisando de frases e palavras novas pra expressar o quanto admiro seu talento. Você é incrível.

    ResponderExcluir
  2. Lembrou minha 5ª série. Eu tinha uma professora de português que me tratava como filho, a Joice. Não era uma coisa tão platônica, e todo mundo sabia que minhas redações narrativas eram só pra ela.

    Mas se for pra eu te dar um conselho, diria pra não parar de escrever, nunca.

    ResponderExcluir
  3. Você consegue aprisionar essa sensibilidade num pote?

    ResponderExcluir
  4. Que desilusão o final. Mesmo parecendo sonho, no meio do texto, você de repente quer que ela tenha esse momento de verdade. Cativou-me.

    ResponderExcluir
  5. Ler, imaginar, arrepiar e sentir. Esse sou eu lendo seus textos.

    ResponderExcluir
  6. E depois a sra tem a cara de pau de dizer que EU escrevo bem. Hum.
    Escrita perfeita, sem muita frescura. Gosto disso.

    ResponderExcluir
  7. Senti aquele friozinho na barriga.

    ResponderExcluir
  8. Falar de sentimentos é algo impossível para muitos. Alguns por timidez, outros por insensibilidade e outros nem mesmo conseguem se expressar.
    Você felizmente foge desses perfís e extravasa sem pudor desejos e mais desejos. É talvez essa característica - entre outras- que desperta naqueles que te lêem uma satisfação imediata, à medida que absorvem tais sentimentos, que são incapazes de controlar ou expressar.
    Dá-lhes Brenda!

    ResponderExcluir
  9. uau. sempre com o mesmo calor e intensidade, magnífica.

    ResponderExcluir
  10. Ual. O final traz surpresas. Afinal, o texto envolve tanto na história (faz imaginar as cenas e tudo) para no final ser apenas um sonho. Mas já tive sonhos com coisas que queria muito que acontecessem. Isso é o pior de tudo, pois quando acordamos, eu pelo menos, sinto uma tristeza por tudo não passar de algo da minha cabeça.
    Já tinha lido seus textos antes, até quando você me mandou o primeiro e nem tinha blog, mas agora resolvi comentar. Você tem um maneira intensa e bonita de escrever. Não se torna vulgar, torna-se bonito. Não pensava que escrevias tão bem. É fato que me surpreendi.
    Tem um selinho para ti no meu blog, bem interessante por sinal. Dê uma olhada. Você não é obrigada a aceitá-lo, mas achei uma boa brincadeira. As regras são legais.
    Um beijo, @pequenatiss.

    ResponderExcluir
  11. Quem sabe eu só deva observar pra não tornar isso repetitivo.

    ResponderExcluir
  12. Belo texto, belas palavras, “bela Junie”.

    ResponderExcluir
  13. Muito bom o texto *-* Você já assistiu o filme A Bela Junie, não é? (NÃO, MAGINA) Eu também e, particularmente, não me chamou muita atenção, achei tão parado (talvez eu não fixei tudo que o filme queria passar), mas seu texto ficou bem melhor do que o filme, direto e envolvente :D

    ResponderExcluir
  14. Seu talento é incrível, pratico para um dia tentar escrever metade do que você escreve.

    ResponderExcluir